Entrevista a Diane Villax
Presidente do Conselho de Administração
2007

 

História

1.       Como surgiu a ideia de constituir a Hovione? Lembra-se como tudo começou?
Em princípios de 1959, vieram dois amigos húngaros ter com o Ivan com uma proposta. Havia, em Milão, uma fábrica de antibióticos pertencente a um grupo de húngaros. Estes necessitavam do “know-how” bem como da protecção de patentes que o meu marido lhe poderia dar através da sua experiencia neste campo, a fim de desenvolverem o negócio. 
Assim se formou a Hovione – HOrthy, VIllax, ONody – com a intenção de cooperar com a empresa italiana e após a saída do Ivan do Instituto Pasteur, deste desenvolver a sua investigação no campo farmacêutico.

2.       Como foram os primeiros anos de pesquisa na cave de um prédio de Lisboa?
Antes de instalar a sua investigação na cave da nossa casa na Lapa, houve uma produção de Pantofenicol, um produto inventado por Ivan Villax, para o qual ele tinha liberdade de venda no estrangeiro. Firmaram-se contratos de fornecimentos para a Espanha, Itália e Grécia, sempre com empresas geridas ou pertencentes a húngaros. A fabricação era feita num barracão do quintal do Lab. Asclepius.
A pesquisa e fabricação para venda de certos esteroides começou em 1962, na Travessa do Ferreiro No. 1 e 3.   Era uma casa de cave, três pisos e jardim, com amplo espaço para um laboratório equipado com a máxima segurança na cave e escritórios e análise no r/c, além de casa de família com 4 crianças e um cão. Havia entrada separada para a Hovione. Com o andar dos anos e o aumento da produção, foi necessário construir um “armazém” no jardim e na arrecadação das ferramentas do jardim foi instalado um reactor onde se fazia, entre outras, a reacção Grignard.

3.       Em 1969, a Hovione cria a sua primeira fábrica em Sete Casas. Porquê esta localidade?
Em 1964, morreu o meu sogro e a minha sogra regressou a Portugal com os dois filhos solteiros e uma irmã. O Ivan viu um anúncio para uma quinta em Sete Casas, Loures, com vivenda. Era o ideal e comprámo-la. Em 1969, foi numa parte da quinta, de 1,7ha, que se iniciou a construção da fábrica. 

4.       Na altura, com quantos colaboradores começaram a laborar? 
Não me lembro.

5.       Internacionalização - quando começou e porquê?
Fundámos a Hovione a olhar para o Mundo como o nosso mercado, portanto desde sempre tivemos de competir com o Mundo e cumprir com todas as exigências dos diversos mercados onde sucessivamente íamos entrando.

6.       Em 1987, inaugura a primeira fábrica além-fronteiras, em Macau. Como surgiu esta necessidade, o porquê do Extremo-Oriente e quais as principais dificuldades aí encontradas?
Vários factores nos influenciaram para a instalação duma segunda fábrica. O Extremo Oriente, especificamente o Japão, foi o nosso primeiro mercado significativo, logo na segunda metade dos anos 60, portanto tínhamos alguma experiência dessa longínqua região. Macau era território chinês sob administração portuguesa, protegido pela Lei Portuguesa, sendo a taxa de impostos favorável, idêntica à de Hong Kong. Além disso, era do nosso conhecimento, por viagens feitas regularmente à RPC desde 1978, que já havia fábricas produzindo produtos químicos que nos interessavam como matérias-primas e intermediários, a preços muito competitivos. A indústria química fina na China progrediu devido ao facto de muitos jovens terem ido estudar para o estrangeiro nos anos 70, voltando com bons conhecimentos. 

7.       Em 1991, a Hovione investe US$5m numa unidade de reciclagem e de recuperação, em Loures. Porquê esta preocupação com o ambiente?
Desde sempre o Ivan teve a máxima preocupação com o ambiente, a segurança e o bem-estar. Desde 1986, estávamos na Comunidade Europeia e já havia legislação criteriosa neste campo. Fábricas italianas tinham sido encerradas por não a cumprirem. Além disso, havia um elemento económico – porquê deitar fora o sobretudo sujo se é possível limpá-lo? – Reciclávamos a acetona, aproveitando 85% que voltava a entrar na produção. Esse raciocínio custou-nos ajuda financeira do Estado Português. Pois na altura havia subsídios para investimento em equipamentos ambientais, mas o nosso caso não estava abrangido justamente devido ao aproveitamento económico! Durante 5 anos fizemos também a recuperação da primeira parte de um metal precioso o ródio, o qual contribuiu para a atribuição de um prémio em 1992.

8.       Mais tarde em 2002, cria uma nova fábrica, desta vez em solo americano, New Jersey. Porquê esta decisão?
Quase 50% da nossa produção é vendida nos EUA. É lógico o fornecedor aproximar-se do seu cliente. Além disso, estamos instalados no estado de New Jersey onde se encontram muitas das grandes empresas farmacêuticas. Na viragem do século, com 40 anos de existência, achámos que era o momento oportuno de tornar conhecido o nosso nome e as nossas capacidades técnicas no mercado, em vez de continuar a vender através de agentes.

9.       O Grupo Hovione está hoje implantado nos três continentes fulcrais do mundo empresarial. Como consegue conciliar a sua forte cultura interna com a forma de estar ocidental e oriental simultaneamente?
Sempre acreditámos que as pessoas que trabalham connosco são o elemento fulcral do nosso sucesso. Assim é necessário que eles sintam que a Empresa assume a responsabilidade que tem para com eles nos vários vectores. Para tal, também fomentamos a ideia de “vestir a camisola”, que todos puxem pelo mesmo e que nós somos Bons.

10.   Lembra-se de alguma situação caricata que tenha sucedido, devido às diferenças culturais?
Em 1986, o trabalhador local estava habituado a trabalhar 7 dias por semana. Nós fechávamos aos Domingos. Foi complicado convencer os trabalhadores que ganhavam ao mês, portanto não lhes estávamos a roubar um dia de ordenado por não deixar trabalhar ao Domingo. 

11.   Apesar de ser um grupo internacional, a Hovione é uma empresa familiar. Como funciona a sua gestão?
A segunda geração compreendeu que no Mundo de hoje só uma gestão muito profissional, bem estruturada e qualificada consegue vencer.  

12.   Se pudesse destacar um momento que a tivesse deixado orgulhosa, durante todos estes anos de Hovione, qual seria?
A excelência exigida pelo Ivan em tudo o que fazia ou mandava fazer. Os seus princípios éticos de que nunca abdicou.

Actividade

1.       Qual a actividade da Hovione?
A produção de princípios activos para a industria farmacêutica.

2.       Quem são os seus principais clientes e para que países exporta?
Temos como clientes tanto as pequenas e médias empresa de biotecnologia, como as grandes empresas farmacêuticas como os laboratórios que vendem genéricos.

3.       Como se constrói um negócio industrial, de base científica e que a partir de Portugal vence nos mercados mais avançados?
Com tecnologia inovativa, muito esforço, bom estudo de mercado, conseguir prever as necessidades com antecedência de anos e pessoal muito dedicado. O timing e a localização são factores essenciais. Em 2007, não teria sido possível iniciar a Hovione nos mesmos moldes e, em 1959, Portugal era o sítio certo no momento certo. A maior parte dos outros países da Europa ocidental estavam mais desenvolvidos de maneira que não seria viável começar um empreendimento tão frágil. Se tivéssemos tido sucesso, teríamos sido comidos ao pequeno almoço por uma concorrente maior e mais rica, alternativamente teríamos morrido sem deixar traço ao fim de um par de anos.

4.       A Hovione aposta fortemente na Inovação. Quer dar-nos um ou dois exemplos de casos de sucesso?
O DDP. Molécula nossa vendida no Japão. O Viracept – o cliente apareceu-nos e em 3 meses tivemos de equipar um edifício fabril, na altura dedicado a outro produto, para produzir 75 toneladas/ano duma matéria diferente.

5.       O Grupo Hovione conta hoje com cerca de 600 colaboradores. Quais são as características que alguém deve ter para entrar nesta equipa?
Disposição para enfrentar o desafio. Capacidade de lutar pelo que entende como o melhor. Não aceitar a solução mais fácil. Vontade de progredir, ter satisfação no trabalho e vencer.

6.       Sempre houve uma grande preocupação a nível de recursos humanos com o bem-estar, motivação e formação dos colaboradores. Porquê esta preocupação?
Somos todos humanos e todos queremos uma vida melhor, para a qual temos que lutar. Há que manter uma constante aumento de qualificação humana, sem a qual não é possível o sucesso. 

7.       A responsabilidade social é hoje em dia uma moda, mas a Hovione sempre teve esta preocupação. De que forma?
Promovendo a boa vizinhança com Open Days, quando todos podem nos visitar e ver a fábrica de perto. Ajudando as escolas regionais e nacionais, premiando as melhores em Química. Apoiando os elementos locais como Corporação de Bombeiros. Dando aos funcionários da Empresa refeições gratuitas, seguro de doença e de vida. Mantendo um alto grau de exigência e controle de Medicina no Trabalho.

Aniversário em 2009
50 anos de glórias

1.       Para comemorar os 50 anos da Hovione, surgiu a ideia de compilar testemunhos daqueles que conviveram de perto com a Empresa, ao longo dos anos. Porquê esta ideia e o que se pretende com ela?
Para que as gerações vindouras saibam como foram os primeiros 50 anos da Hovione, quais os desafios, as lições, as alegrias e as tristezas. Descrever os degraus que se foram subindo sucessivamente até chegar ao ponto aonde nos encontramos hoje.

2.       Qual o balanço que faz deste 50 anos de Hovione?
50 anos de vida intensa, completa e que o nosso trabalho tenha sido benéfico para a Sociedade.

3.       Como descreveria a Hovione numa frase?
Uma Empresa que tem conseguido vencer os desafios enfrentados ao longo de 50 anos.

4.       A Hovione tornou-se, nos últimos anos, uma referência no mercado internacional. Esta é sem dúvida a consequência da obra iniciada pelo Eng. Ivan Villax. Como imagina a Hovione daqui a 50 anos?
Está em boas mãos, compete-nos educar a terceira geração para que possam continuar a obra iniciada por Ivan Villax.

Engº Ivan Villax - genial, determinado e lutador

1.       Todos aqueles que conheceram o Eng. Villax reconhecem-lhe qualidades muito marcantes. Como o descreveria enquanto pessoa? Na sua vertente familiar e profissional.
Genial, exigente para consigo e para com os outros, de grande coração e amigo certo, apesar de cientista um bicho social, com muito sentido de humor. Profundamente conhecedor em todas as vertentes – cultura, tecnologia, agricultura. Nunca lhe perguntei nada para o qual não tivesse uma resposta. De ideias muito determinadas donde era difícil desviá-lo.

2.       Quais eram as suas maiores paixões?
A família, a sua química e o seu jardim.